14.1.09

A presença de Eastwood

Nada podia ser mais comovente do que o regresso de Clint Eastwood, não só atrás das câmaras no magnífico «Changeling», como à frente (pela última vez?) num dos filmes mais definitivos do cineasta e da sua presença no cinema: «Gran Torino».


Desengane-se quem tenta ver em «Changeling» um filme de época ou um telefilme sociológico que pretende denunciar um caso verídico e todos os organismos sociais e políticos que o integram. É, claro, também sobre isso; é um filme radical sobre o confronto do indivíduo com os mecanismos sociais que contrariam a sua existência, mas é também um filme silenciosamente destruído pela perversidade de uma narrativa que se constrói contra uma mãe que tem de aceitar um filho que não é seu. Mais do que isso, a solene desconstrução da infância angélica e delicada, espelhada no rosto de uma criança que se faz passar por um filho que não é (com uma seriedade que, por vezes, nos gela os sentidos), bem como por outras crianças cuja narrativa parece convocar para o fim de uma inocência irreversivelmente perdida.

Num filme onde a estarrecedora fotografia ilumina cada imagem como se as memórias de uma época fossem, de uma vez só, uma presença irrevogável e uma utopia cinematográfica, é Angelina Jolie que se torna a mais espantosa componente humana e entrega uma das interpretações mais intensas e angustiantes dos últimos anos (e, sem qualquer hesitação, da sua carreira).

De Clint Eastwood, sente-se no filme uma desconcertante serenidade e uma sobriedade clássica na construção das imagens, na montagem e no confronto de planos (porque cada plano encena em si mesmo, a vontade e o destino do realizador e do actor). A profundidade do campo/contra-campo regressa à obsessão milimétrica de «Mystic River», também porque o confronto ideológico exige uma certa dimensão operática que Eastwood tão bem conhece. Mas existe nas imagens também o intimismo e a respiração dramática de «Million Dollar Baby», sabendo que a própria câmara pode desaparecer, a espaços, para se filmar um olhar ou uma lágrima com a mesma tragédia. É um filme infinitamente belo... tão belo quanto triste.



De «Gran Torino», a primeira imagem a reter é a presença incontornável de Clint Eastwood no regresso ao ecrã. E a sua presença não podia ser mais autobiográfica: um velho americano solitário (após a morte da sua mulher) e céptico em relação a todo o mundo que o rodeia. O filme é, de uma certa forma, o testemunho que o cineasta passa ao mundo de toda a sua presença no cinema, uma espécie de justificação assombrosa e artística da sua maneira de olhar o mundo, a vida e os espaços à volta.

Clint Eastwood interpreta Walt Kowalski, um veterano de guerra que não se reconhece na sua família, foge da sua vizinhança, rosna à futilidade angustiante da juventude, faz comentários racistas e chora em silêncio a perda da sua mulher. Aflorado por momentos de humor muito divertidos, o filme esconde uma dor devastadora. Não só a dor de estar sozinho, mas a possibilidade de morrer sozinho. Da tragédia iminente surge, claro, a possibilidade do melodrama. Por outras palavras, é possível reencontrar uma sensação de legado que justifica a vida, a morte, a velhice e a juventude, o clássico e o contemporâneo. E que maior símbolo de legado poderia haver do que o Gran Torino, carro emblemático americano a que o título faz alusão e que simboliza de uma vez só, o ancestral e a imponência.

Existe, de forma nada ocasional, um olhar sarcástico desse ancestral e imponente Clint Eastwood sobre a juventude, seja no seu olhar agastado sobre os piercings ou na recorrência de expressões de indignação sobre os comportamentos dos jovens. Nesta história, um jovem em particular irá produzir um efeito invulgar na narrativa quando a sua vida se cruza com a de Walt e o seu Gran Torino. De facto, existe nessa relação uma espécie de verdade que se distancia da vida e da religião (em boa verdade, a fé é algo que existe, neste filme, como uma crença redescoberta no humano).

Tudo em «Gran Torino» é uma lição de vida, desde a criação de uma família, ultrapassando raças e idades, até à dimensão moral que integra os destinos de cada um. Por razões deontológicas, importa não revelar o desfecho de «Gran Torino», mas é impossível, por cada lágrima que nos escapa, não sentirmos que a presença de Eastwood no ecrã nunca foi tão decisiva e apoteótica. Um pequeno milagre para nunca deixarmos de acreditar no cinema.

11.1.09

2008 (João Eira)

As estreias em sala no ano que passou foram escassas em qualidade. Consequência dos avanços tecnológicos que ditam um aumento da pluralidade de meios de divulgação das artes audiovisuais, mas também da já tradicional e generalizada mediocridade nas decisões dos responsáveis nacionais pela distribuição e divulgação dos filmes.

Nos media especializados, é difícil distinguir o amador do (supostamente) profissional. O número de revistas de cinema parece aumentar na proporção inversa da geração de verdadeiro pensamento crítico. A adjectivação fácil, comparação gratuita, a reciclagem das mesmas tretas sobre reinvenção do género ou sobre a invasão da mediocridade televisiva. O tomar a pequenez e irrelevância da crítica nacional (que se confunde aliás com a irrelevância do próprio cinema português) como sinal de independência ou criatividade, são já um hábito deste País cheio de críticos e cineastas incompreendidos.

Antes de deixar os meus favoritos do ano, não posso deixar de destacar o inédito Redbelt, verdadeiro tratado sobre a honra, e uma pedrada no charco que é este mundo de relativização de valores e códigos éticos. Para lá de qualquer enquadramento religioso ou filosófico, Mike Terry, protagonista do filme, permanece comigo como exemplo do que é dar sentido a uma Vida.


Sem mais rodeios, aqui ficam os filmes que me marcaram neste (pela positiva e pela negativa):

Os Dez Mais

There Will Be Blood - Paul Thomas Anderson


We Own the Night - James Gray
No Country for Old Men - Joel & Ethan Coen
Before the Devil Knows You´re Dead - Sidney Lumet
The Dark Knight - Christopher Nolan
The Happening - M. Night Shyamalan
La Frontière de l`Aube - Phillipe Garrel
Lust, Caution - Ang Lee -
Indiana Jones and the Kingdom of the Cristal Skull - Steven Spielberg
Hunger - Steve McQueen

Merecendo ainda referência os regressos de Coppola com Youth Without Youth e de Resnais com Coeurs, a ousadia politica e socialmente incorrecta de Stallone em Rambo e de Padilha em Tropa de Elite, a candura indie de Juno, a dureza do drama de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias.


Recycle Bin

The Assassination yadda yadda
Cloverfield
Rendition
Sleuth
In the Valley of Elah
10000 BC
The Mist
Speedracer
Gomorra
Paris

10.1.09

Solidão



9.1.09

«Changeling» e os seus vários filmes


Há vários filmes em «Changeling» (Eastwood, 2008), e desses apenas um vale realmente a pena. Os outros perdem-se ou falham por diversas razões ou limitam-se a gerir competentemente as suas informações. «Changeling» surge, assim, como um objecto bom e estimável, mas que é directamente remetido para as margens da obra de Clint Eastwood, onde se situam os seus filmes menos memoráveis.

Em matéria de filmes dentro do filme, há, desde logo, o filme da mãe solitária que vê o seu filho desaparecer de casa. É o melhor dos filmes de «Changeling». Aquele em que emerge um melodrama sombrio e ponderado, esteticamente elegante e sempre triste, muito triste, de uma tristeza imperturbável que se instala delicadamente nas imagens, sem imposições artificiais nem movimentos abruptos. É o filme que ilumina o rosto soturno de Angelina Jolie e é contaminado pela convicção dos seus gestos e pela obstinação do seu olhar. Dir-se-ia que é o filme clássico de «Changeling», pautado por uma perfeita harmonia e equilíbrio entre a composição das imagens e as personagens e emoções que as habitam, numa gestão rítmica sem mácula.

Depois, há o resto. Há o filme policial, em que se investiga o desaparecimento da criança e outras situações relacionadas; há o filme político-social, em que se procura caracterizar a corrupção e a falência moral das forças públicas da Los Angeles dos anos 20 e 30 do século XX; e há, enfim, o filme de tribunal, sobre a Justiça enquanto instituição e enquanto valor intrínseco. Nenhum destes filmes convence totalmente ou impressiona do ponto de vista cinematográfico. Eastwood já fez mais e melhor em cada uma dessas áreas e em «Changeling» não só não traz nada de significativo, como, de um modo geral, simplifica e retira complexidade ao que já mostrou no passado. O filme policial, por exemplo, é totalmente convencional nos seus termos, rotineiro até; longe, muito longe, da complexidade e do peso que habitava cada frame do fabuloso «Mystic River» (Eastwood, 2003). Por outro lado, se o filme de tribunal é relativamente eficaz e bem engendrado — contando, aliás, com a excelente e fordiana personagem do advogado —, já o filme político-social é pouco mais do que medíocre nas suas componentes fundamentais e perde-se numa série de maniqueísmos e de simplismos que prejudicam irremediavelmente a obra.

Em geral, existe também uma construção algo duvidosa de certas personagens, ora reduzidas a meros bonecos despidos de qualquer dimensão humana (de que é exemplo paradigmático o psiquiatra), ora erigidas a meros instrumentos narrativos sem existência própria (por exemplo, a prostituta), ora reduzidas ao mínimo de complexidade (e portanto de interesse) possível (a personagem do polícia ou do pastor, por exemplo). De resto, a experiência cinematográfica surge também prejudicada, a espaços, por certos desvios de tom (como pequenos laivos de comédia de duvidosa pertinência) e por alguns excessos de realismo que contrastam de forma demasiado pronunciada com a subtileza e contenção geral do drama.

Regressando ao delicado melodrama que eleva qualitativamente a obra, não pode deixar de realçar-se o admirável trabalho de representação de Angelina Jolie, brilhante em todas as cenas em que aparece e com uma gestão de emoções verdadeiramente impressionante. Despido de tudo o resto — da política e da polícia, da justiça e da sociedade — «Changeling» consegue ser intimista e vibrante. Angelina Jolie e o drama que solitariamente consegue construir fazem-nos pensar no quão extraordinário poderia ter sido «Changeling» se tivesse ficado apenas com ela.

Os Melhores de 2008 - Música (João Pedro Jorge)

Se 2008 acabou por ser um ano ligeiramente mais fraco que os últimos em termos cinematográficos, já no campo musical foi dos mais interessantes de que me recordo, com novos nomes a irromperem com imparável criatividade, lado a lado com nomes firmados que mostraram alguns dos seus discos mais inspirados em largos anos.
Aqui fica o (extenso) top, tendo alguns títulos ainda ficado de fora...


1 - Camané - Sempre de Mim
2 - Bon Iver - For Emma, Forever Ago
3 - Fleet Foxes - Fleet Foxes e Sun Giant EP
4 - Toumani Diabaté - The Mandé Variations
5 - Evangelista - Hello, Voyager
6 - Beach House - Devotion
7 - Portishead - Third
8 - Dodos - Visiter
9 - Department Of Eagles - In Ear Park
10 - High Places - High Places e 03.07-09.07

11 - The Fun Years -Baby, It’s Cold Inside
12 - Sic Alps - A Long Way Around To a Shortcut e U.S. Ez
13 - The Gutter Twins - Saturnalia
14 - Silver Jews - Lookout Mountain, Lookout Sea
15 - The Notwist - The Devil, You + Me
16 - No Age - Nouns
17 - Vampire Weekend - Vampire Weekend
18 - Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra and Tra-La-La Band - Thirteen Blues For Thirteen Moons
19 - Atlas Sound - Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel
20 - Bonnie 'Prince' Billy - Lie Down In The Light

21 - TV On The Radio
- Dear Science
22 - MGMT - Oracular Spectacular
23 - Leila - Blood Looms and Blooms
24 - Benga - Diary Of An Afro Warrior
25 - African Scream Contest - Raw & Psychedelic Afro Sounds from Benin & Togo 70s
26 - Mount Eerie - Lost Wisdom
27 - Micah P. Hinson - Micah P. Hinson and The Red Empire Orchestra
28 - Lambchop - OH(Ohio)
29 - Shakleton and Appleblim - Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated By Vandals
30 - Flying Lotus - Los Angeles

31 - Yeasayer
- All Hour Cymbals
32 - Spiritualized - Songs In A&E
33 - The Ruby Suns - Sea Lion
34 - Religious Knives - It's After Dark
35 - Randy Newman - Harps And Angels
36 - Bob Dylan - Tell Tale Signs: The Bootleg Series Vol. 8
37 - Hercules And Love Affair - Hercules And Love Affair
38 - Lykke Li - Youth Novels
39 - The Raconteurs - Consolers Of The Lonely
40 - Earth - The Bees Made Honey In The Lion's Skull

41 -
Shearwater - Rook
42 - Robert Forster - The Evangelist
43 - Drive-By Truckers - Brighter Than Creation's Dark
44 - Adriana Calcanhotto - Maré
45 - Wildbirds & Peacedrums - Heartcore
46 - The Chap - Mega Breakfast
47- Joan As Police Woman - To Survive
48 - Jamie Lidell Jim
49 - Arthur Russell - Love Is Overtaking Me
50 - Beck - Modern Guilt / Death Cab For Cutie - Narrow Stairs / Calexico - Carried To Dust / Matmos - Supreme Balloon / Why? - Alopecia

8.1.09

Os Melhores de 2008 - Cinema (João Pedro Jorge)

Ainda em tempo de balanços, para já o top das estreias em sala em 2008.

1 - There Will Be Blood, Paul Thomas Anderson
2 - No Country For Old Men, Joel e Ethan Coen
3 - Before The Devil Knows You’re Dead, Sidney Lumet
4 - We Own the Night, James Gray
5 - The Happening, M. Night Shyamalan
6 - Coeurs, Alain Resnais
7 - WALL.E, Andrew Stanton
8 - The Dark Knight, Christopher Nolan
9 - Diary Of The Dead, George A. Romero
10 - Aquele Querido Mês de Agosto, Miguel Gomes
e La Frontière de L'Aube, Philippe Garrel
------------------------------------------------------------------------
11 - Gomorra, Matteo Garrone
12 - The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, Andrew Dominik
13 - Hunger, Steve McQueen
14 - Entre Les Murs, Laurent Cantet
15 - In Bruges, Martin McDonagh

4.1.09

Melhores de 2008 (Paulo Albuquerque)

1 - Three Times de Hou Hsiao Hsien
2 - Ne Touchez pas la Hache de Jacques Rivette
3 - Gomorra de Matteo Garrone
4 - There Will Be Blood de Paul Thomas Anderson
5 - We Own the Night de James Gray
6 - The Happening de M. Night Shyamalan
7 - 4 Months, 3 Weeks & 2 Days de Christian Mungiu
8 - The Dark Knight de Christopher Nolan
9 - Four Nights with Anna de Jerzy Skolimowski
10 - Les Amours d'Astrée et de Céladon de Eric Rohmer, Diary of the Dead de George Romero e Halloween de Rob Zombie


Inéditos:
1 - Hurt Locker de Kathryn Bigelow
2 - En La Ciudad de Sylvia de José Luis Guerín
3 - RedBelt de David Mamet
4 - 35 Rhums de Claire Denis
5 - Go Go Tales de Abel Ferrara, Red Cliff (parte 1) de John Woo e Tulpan de Sergei Dvortsevoy


Albums:
1 - Shackleton & Applebim - Soundboy's Gravestone Gets Desecrated By Vandals
2 - Evangelista - Hello Voyager
3 - Jacaszek - Treny
4 - Camané - Sempre de Mim
5 - The Fun Years - Baby it's Cold Inside
6 - Flying Lotus - Los Angeles
7 - Crystal Stilts - Alight of Night
8 - Kevin Drumm - Imperial Distortion
9 - Leila - Blood Looms and Blooms
10 - Portishead - Third
11 - Department of Eagles - In Ear Park
12 - The Cool Kids - Bake Sale
13 - Alva Noto - Unitxt
14 - Bonnie 'Prince' Billy - Lie Down in the Light
15 - A Weather - Cove
16 - Tv on the Radio - Dear Science
17 - Beach House - Devotion
18 - The Notwist - The Devil, You + Me
19 - Earth - The Bees Made Honey In The Lion's Skull
20 - Isobell Campbell & Mark Lanegan - Sunday at Devil Dirt
21 - Mount Eerie - Lost Wisdom
22 - Helios - Caesura
23 - Nick Cave & The Bad Seeds - Dig!!! Lazarus Dig!!!
24 - Fleet Foxes - Fleet Foxes
25 - The Hospitals - Hairdryer Peace
26 - Headhunter - Nomad
27 - Religious Knives - It's After Dark
28 - Q-Tip - The Renaissance
29 - Autechre - Quaristice
30 - Benga - Diary of an Afro Warrior, DJ Rupture - Uproot e Al Green - Lay It Down

3.1.09

Os melhores filmes de 2008

Não se pode afirmar que o ano de 2008 tenha sido abastado em inumeráveis estreias de grandes obras cinematográficas, mas a realidade é que no meio de muitos lançamentos desinteressantes se elevaram uma série de filmes cujo valor não pode ser menosprezado. Foi um ano especialmente favorável para o cinema europeu cujo exemplo máximo terá sido o assombroso romance de Phillipe Garrel com A Fronteira do Amanhecer. Também em terreno parisiense teve lugar O Voo do Balão Vermelho, um absorvente pedaço de vida do realizador chinês Hou Hsiao-Hsien. Trocando as anteriores e audaciosas experiências no cinema ocidental, Ang Lee regressa às origens com Sedução, Conspiração, um tentador e assombroso conto de lascívia e espionagem no pós-guerra.

É no entanto de destacar a força autoral do cinema americano, mais ou menos independente. Trouxe o regresso de valores clássicos como o de Sidney Lumet em Antes que o Diabo Saiba que Morreste e a consagração de muitos outros. É o caso da perícia cénica esquizofrénica de Todd Haynes em I’m Not There na construção da mais audaciosa biografia a surgir na última década. Surge também Nós Controlamos a Noite, o drama policial de enorme envolvência emocional de James Gray. Os grandes filmes do ano são no entanto Haverá Sangue e Este País Não É Para Velhos, respectivamente de Paul Thomas Anderson e dos irmãos Coen, duas obras tão divergentes que encontram o mesmo chão no derrubamento dos limites de um género tão circunspecto, evidenciando que as possibilidades do cinema continuam infindáveis.

Não esquecendo no entanto os dois filmes que mais terão facturado no mundo e que também figuram no melhor que a 7ªarte nos deu em 2008: o fenomenal prodígio de animação que é Wall-E e na extasiante redefinição do blockbuster e do vulgo comic-book-movie em O Cavaleiro das Trevas.


1. Este País Não é Para Velhos de Joel & Ethan Coen
2. Haverá Sangue de Paul Thomas Anderson
3. Nós Controlamos a Noite de James Gray
4. Sedução, Conspiração de Ang Lee
5. O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan
6. Wall-E de Andrew Stanton
7. I'm Not There de Todd Haynes
8. O Voo do Balão Vermelho de Hou Hsiao-Hsien
9. Antes que o Diabo Saiba que Morreste de Sidney Lumet
10. A Fronteira do Amanhecer de Phillip Garrel

1.1.09

Balanço de 2008 (João Ricardo Branco)



1. Ne Touchez pas la Hache (Jacques Rivette)
2. The Happening (M. Night Shyamalan)
---------------------------------------------------
3. Before the Devil Knows You're Dead (Sidney Lumet)
4. La Frontière de L'aube (Philippe Garrel)
5. There Will Be Blood (P.T. Anderson)
6. Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes)
7. We Own the Night (James Gray)
8. Tropa de Elite (José Padilha)
9. Cassandra’s Dream (Woody Allen)
10. Coeurs (Alain Resnais)

E eis que ao cair do pano chega o filme do ano! Na verdade, «Ne Touchez pas la Hache» não é de 2008 (o seu ano de produção é 2007) nem sequer estreou nas salas de cinema portuguesas: foi lançado directamente nas prateleiras do mercado de DVD nestas últimas semanas do ano. E se isto, só por si, diz muito (e mal) sobre o estado da distribuição de filmes no nosso país, nada diz, no entanto, sobre o maravilhoso filme de Rivette.

«Ne Touchez pas la Hache» é um filme que nos atinge como um raio na mesma medida em que as palavras de Antoinette atingem o general Montriveau no início da narrativa quando esta — agora uma freira enclausurada — lhe suplica humildemente que não a trate por Antoinette porque as lembranças do passado são dolorosas… O diálogo prossegue depois mais uns momentos até que as cortinas que separam a freira e o visitante se fecham abruptamente e o filme suspende em absoluto a acção presente e viaja, num enorme flashback, até 5 anos antes, altura em que os dois se conhecem e, contra a sociedade parisiense de início de século XIX, se apaixonam.

É nesse imenso e doloroso passado que Rivette se instala para, com precisão de relojoeiro e sensibilidade de poeta, contar mais uma história de amor louco. O realizador adapta aqui muito fielmente o belíssimo «La Duchesse de Langeais» de Balzac, preservando inclusivamente a riqueza da escrita do novelista francês, ao mesmo tempo que, do ponto de vista cinematográfico, vinca fortemente as suas marcas de realizador, sobretudo no que respeita ao tratamento do tempo e da mise-en-scène. A dupla de actores Guillaume Depardieu e Jeanne Balibar faz o resto, num insuperável trabalho de representação: a tristeza lancinante empregue por Depardieu e o abismo interior criado por Balibar são quase milagrosos e esmagam-nos por completo. Tudo o que é preciso saber sobre o amor está neste filme.

Destacado de tudo o resto surge também «The Happening», a extraordinária obra que Shyamalan nos entregou em meados do ano. A personagem central do filme chama-se Alma — como em «Persona» de Bergman — e é com ela que o filme ultrapassa as suas próprias circunstâncias e assume, com a máxima simplicidade, aquilo que verdadeiramente lhe dá vida: a descoberta do sentido maternal. É claro que «The Happening» é também um filme muito inteligente sobre ecologia, política e família. Mas o grande arco narrativo do filme, o seu caminho dramático e emocional, é percorrido por Alma na progressiva descoberta das suas próprias emoções. De resto, nos muito económicos, directos, empolgantes e tensos 90 minutos de película, Shyamalan constrói um notável sentido de urgência, continuando a acreditar, como sempre, no poder transformador do Cinema e na verdade dos seus temas de eleição.

Quanto ao mais, considero que 2008 foi, em termos de estreias nas salas portuguesas, um dos piores anos cinematográficos desde 1930 (para nos ficarmos apenas pela era sonora), porventura mesmo o pior. Tirando os dois filmes acima referidos — e apesar da qualidade dos outros filmes que compõem o TOP10 — pouco mais há que ameace ultrapassar, de forma significativa, as fronteiras do tempo e da memória.

Fora da 7.ª Arte. No Teatro nada me arrebatou tanto como a peça «Rock ‘n’ Roll», que passou pelo Teatro Aberto no primeiro semestre do ano e que fui ver 4 vezes. Impressionaram-me igualmente os monólogos de Beatriz Batarda (a melhor actriz portuguesa) em «De Homem para Homem» (Teatro da Cornucópia/Bairro Alto) e de João Lagarto em «Começar a Acabar» (Teatro Nacional D. Maria II). E em termos de concertos, guardo sobretudo na memória as actuações dos The National (Aula Magna, 11 de Maio), de Róisín Murphy (Optimus Alive, 12 de Julho), de Leonard Cohen (Passeio Marítimo de Algés, 19 de Julho) e de Ornette Coleman (Aula Magna, 5 de Novembro).

E quanto à minha vida em 2008… bom, isso não é para ser revelado neste blogue! Feliz 2009!

31.12.08

Os Meus Heróis em 2008

Randy "The Ram" Robinson

Mike Terry

17.12.08

O Fado do Cansaço


É irónico pensar no desdém com que é encarado o cinema português pelo público em geral, grupo em que me incluí durante largos anos, e depois contrastá-lo com filmes como Amália, de Carlos Coelho da Silva, também responsável pela última encarnação nas salas d’O Crime do Padre Amaro. O intuito seria capturar na tela um pouco da alma do povo português na sua embaixatriz mais ilustre e celebrada, contando a sua história desde a infância até dez anos antes da sua morte. Coelho da Silva pretende logo impressionar com falsas demonstrações de domínio de câmara, que se vêm revelar inconsequentes e, pior que tudo, académicos, deixando o filme cair na fórmula já muito esbatida do biopic norte-americano. E se este modelo caduco pode já ter sido proveitoso, é totalmente desadequado para Amália Rodrigues, ao ponto de poder ser considerada heresia a desfiguração da pessoa em prol de uma acessibilidade mais banalizante telenovelesca.

Sandra Barata Belo é a única que consegue escapar com uma nesga de redenção, ainda que secundada por um dos piores e mais execráveis elencos dos últimos tempos. Entre os seus trunfos encontram-se diálogos glaciais e debitados à ameaça de bala, gags involuntários e sotaques forçados e ultrajantes, no qual se destaca o inenarrável “dialecto” brasileiro conjurado por Ricardo Carriço para César. A realização não consegue nunca ultrapassar a sua inapta condição atabalhoada e nem mesmo com um “modesto” orçamento de três milhões de euros foi capaz de se elevar para além do programático e do expectável. No entanto, existem certos momentos ou planos de câmara onde se sente o contentamento do maestro em incendiar vastas porções do orçamento. O remate final, já com o ecrã em negro, é “Dizem que morreu em 1999... enganam-se!”.

Numa nota mais pessoal e voyeurista, no final do visionamento, assisti a uma conversa entre uma turista francesa e a amiga portuguesa, que provavelmente a tinha levado a ver o filme para conhecer um pouco melhor a maior figura do mundo artístico português. A primeira estava desiludida, apontando ao filme muitas das suas falhas evidentes, ao que a segunda se desculpou dizendo “para português não está mau”. É este espírito de conformismo debilitante que tem de ser rapidamente combatido. Mas quando a filmes como Amália são financiados e publicitados tão colossalmente e objectos de verdadeiro fulgor artístico como Entre os Dedos são totalmente descartados e deixados ao abandono, é de concluir que não é de todo algo que seja culpa dos que visitam as salas de cinema em busca de alguma empatia. Se haviam esperanças que, tendo em conta a grandiloquência e imortalidade de Amália, pudesse surgir algo do qual se pudessem orgulhar, viram todas essas expectativas dissiparem-se velozmente. Amália merecia melhor. E o público também.

17.11.08

Preto e Branco: As Cores do Amor





* La Frontière de L'aube (Garrel, 2008), um dos filmes maiores deste ano

8.11.08

Serviços Mínimos


Depois do estrondoso sucesso de reinvenção artística e espectáculo que foi Casino Royale, a série Bond volta, por assim dizer, à banalidade que a caracterizou durante largos anos. Funcionando como sequela do filme anterior, num esquematismo transparente de sequência de acção-diálogo inconsequente-sequência de acção, The Quantum of Solace cumpre os mínimos para um filme deste orçamento e magnitude, mas não vai um milímetro além disso. As sequências de acção inspiram-se quase exclusivamente nos filmes de Jason Bourne, faltando no entanto a coerência estética e o domínio da "câmera nervosa" que Greengrass já desenvolveu. As miúdas russa e inglesa são, também elas, ecos de inúmeras bond girls anónimas, caras bonitas que rapidamente cairão nas brumas do esquecimento. Longe, muito longe de Eva Green e da sua Vesper Lynd. Mais que isto tudo, faltam personagens e narrativa, falta a complexidade piscológica que permeava o grande filme de acção que Casino Royale é. Salva-se o carisma que Daniel Craig continua a emprestar a Bond. Mas é pouco, muito pouco mesmo.

7.11.08

Noites de Treta


Também há filmes assim. Fedendo a pretensão por todos lados e cheios de maneirismos até ao tutano. Procura-se assim disfarçar através do excesso de artificialismo a completa vacuidade e desinspiração, se é que de facto se procurou alguma. Kar-Wai parece ter, como tantos antes dele, perdido completamente a sua matriz como criador ao converter-se à língua e produção ocidental. Uma espécie de filme do dia dos namorados em versão posh e in, este My Blueberry Nights faz-me dar graças pela possibilidade que o DVD nos dá de fazer fast-forward. Tempo perdido!

5.11.08

Redbelt ou O Método do Samurai

Por vezes é complicado tentar descortinar as razões pelas quais um determinado filme fica fora de um plano de estreias das distribuidoras. Mais complicado ainda quando se trata de uma obra de um dos mais aclamados dramaturgos dos nossos tempos. Não conquistou quaisquer prémios, não ganhou avultadas quantias nas bilheteiras nem foi o maior “querido” da crítica especializada americana. Factores que parecem ser suficientes para o descartar do mapa de estreias em Portugal ou para o atrasar indefinidamente até cair num pérfido esquecimento e precipitar um lançamento em loja. Irá ser uma das películas apresentadas fora de competição no Festival do Estoril este mês mas é uma acção evasiva ainda que louvável, tendo em conta que Redbelt de David Mamet é um dos grandes filmes (não) estreados em 2008 e uma das mais luminescentes surpresas do ano.

Conhecido maioritariamente pelo seu trabalho nos palcos enquanto famoso encenador e pelos textos tremendamente cerebrais e intelectualizáveis, o primeiro choque com que somos confrontados em Redbelt é a simplicidade e transparência que se abate em cada frame. Na sua essência é um filme de luta, uma actualização contemporânea do mito do samurai. Acompanha Mike Terry, um descomplicado treinador de jujitsu urbano, numa série de problemas que o fazem reavaliar ou reforçar a posição que assume na sua própria vida. Tudo começa quando numa noite como todas as outras, uma mulher em estado de pavor entra pelo seu dojo adentro e acidentalmente, em reacção a uma aproximação inofensiva de um dos discípulos de Terry, dispara uma arma carregada sobre uma das vitrines.

Tudo a partir daqui se desconstrói. A vida simples de Terry é posta em causa, inicialmente e só aparentemente, a seu favor. Defende um célebre actor numa luta de bar induzida pelo álcool e, por fazer nada mais que aquilo em que acredita, é pela primeira vez recompensado, algo que nunca desejou por nada que tivesse concretizado. Mas rápido o sonho impensado de prosperidade também se desmorona e Mike Terry é basicamente levado a entrar num combate, algo que sempre desprezou pelo puro desrespeito e falta de integridade no uso de métodos ancestrais de defesa e concentração meditacional para proveito monetário. Mas fá-lo porque não lhe resta outra solução para defender a sua honra e os princípios que regem e edificam a sua vida.

É aqui que é materializado o conceito de samurai, transposto para uma realidade palpável e quotidiana, de desilusão no mundo efémero que nos rodeia e nos atalhos comprometedores da integridade e da moralidade que todos seguimos para alcançarmos os nossos objectivos. Mas o único objectivo de vida de Mike Terry é a verdade, e nada mais lhe é precioso. Por isso mesmo é visto pelos seus antagonistas como um falhado que nada substanciará, desde um desprezível produtor de cinema à própria mulher que tanto ama. Chiwetel Ejiofor é de uma serenidade reveladora e ao longo do filme vai-nos mostrando a verdade em cada acto e palavra que define não só a sua personagem mas a filosofia de vida que adopta. Raramente se vê uma interpretação tão poderosa, valorosa e verdadeiramente transcendente num receptáculo tão silencioso e despretensioso. Quem vê Ejiofor a ultrapassar os limites do significado da definição de actor, pergunta-se como é possível continuar a não dar o merecido destaque a um actor que, na sua discreta excelência, tem mostrado tudo o que pode dar.

Não desmerecendo o elenco secundário, que inclui pessoas tão díspares quanto Tim Allen e Rodrigo Santoro, onde Mamet revela a sua destreza enquanto dramaturgo. Basta olhar para a personagem transfigurada e multidimensional da também sempre perfeita Emily Mortimer. Mal irrompe pela história, reconhece-se imediatamente o seu tumulto e o medo que exala por todos os poros, mesmo quando posteriormente se mostra enquanto uma profissional e eximia advogada. A relação não-amorosa travada entre Ejiofor e Mortimer é um dos prodígios cinematográficos do ano e de uma arrebatadora significância, tal como é a inesquecível encenação do cru e derradeiro confronto humano. Porque tal como Redbelt em si, guarda importantes segredos por detrás da sua enganadora simplicidade. Neste aspecto, e em muitos outros, esta obra de David Mamet é uma memorável e imensa lição de vida que raramente se vê reflectida com tamanha genuidade e certeza em cinema. Assim se recusa em cair no esquecimento.

American Dream

* Barack Obama, 44.º Presidente dos EUA
"The greatness of America lies not in being more enlightened than any other nation, but rather in her ability to repair her faults..." - Alexis de Tocqueville (1805-1859)

3.11.08

Redbelt

There is no situation that you could not escape from. There is no situation that you could not turn to your advantage.

Há coisas assim. Há filmes assim. Que nos lembram o que vale realmente a pena. Que nos remetem para a fidelidade aos nossos princípios de vida. Que mostram que o único caminho que interessa é aquele que nos dá a mais valiosa das recompensas: estarmos bem connosco próprios. O cinto? Serve apenas para segurar as calças...

31.10.08

2008: Love is in the air...

Elliot & Alma



Mr. Yee & Chia Chi


Juno & Paulie



Bobby & Amanda


WALL•E & EVE


W and Laura

2.10.08

Louisiana, Vampiros e Blues


Quando em 2001 estreou a primeira temporada de Six Feet Under não havia nada que a ela se assemelhasse no panorama televisivo. E quando a família Fisher se despediu há três anos, o legado que deixou ficar é igualmente raro. Ainda é muito cedo para traçar paralelismos com a nova série de Alan Ball, principalmente por serem objectos tão radicalmente diferentes que é quase impossível reconhecer uma origem comum. Mas também se pode fazer uma incontestável afirmação acerca de True Blood: nunca se viu nada assim em televisão.

Não por ser dramaticamente revolucionária e complexa como a anterior criação de Ball. Talvez por invocar elementos quase opostos. True Blood é puro pulp fiction, entretenimento exacerbado com uma história inconcebível, inspirada numa série de livros de Charlaine Harris que tem como heroína Sookie Stackhouse, uma empregada de restaurante que tem a peculiar capacidade de ler os pensamentos de todos os que a rodeiam. Ou melhor, quase todos. Numa noite quente nesta pequena vila do Louisiana, um vampiro entra no estabelecimento onde trabalha e, simultaneamente amedrontada e lasciva, percebe que não o consegue sondar. Se calhar deveria ter feito claro desde o início da exposição da premissa que esta história se passa num mundo paralelo muito semelhante ao nosso, com a diferença de agora os vampiros viverem entre os humanos depois de séculos de reclusão. Advento feito possível pela invenção de um novo sangue sintético que lhes permite ter toda a nutrição necessária sem o incómodo da exsanguinação mortal de humanos.

É neste distorcido universo que as personagens de True Blood moram. E elas são tão complexas na sua simplicidade quanto autênticas na forma como vivem. A linha narrativa principal segue os descobrimentos amorosos de Sookie e de Bill, o seu cortês e misterioso amigo. Nele a quase puritana e virginal Sookie, interpretada soberbamente pela prodigiosa Anna Paquin, encontra pela primeira vez um escape para a sua habilidade nata, uma atracção à qual ela resiste com toda a força da sua moral. Existe um tradicionalismo melodramático na forma como é construída esta relação e na forma quase conservadora como o romance evolui. Talvez porque os vampiros se tenham tornando em objectos de desejo sexual por parte dos comuns mortais e ela luta contra cair nesse estereótipo e em todos os perigos a ele associados.

Também existem Jason, irmão de Sookie e o seu completo oposto a nível de ética sexual, Tara, a sua atiçada melhor amiga, e uma série de interessantes personagens secundárias que injectam vida e sangue nas desventuras desta peculiar vila sulista. E é nestas soturnas e misteriosas ambiências do Sul que assenta toda a magnifica identidade visual da série. O calor incessante e sufocante dos dias (plácidos) e das noites (sórdidas), os blues sujos e pervertidos, a moralidade religiosa distorcida e os cenários pantanosos são idílicos no onirismo conjurado. Mais um lado da exploração de Allan Ball da luz e das trevas, da vida na morte. Apesar de ainda só quatro de doze episódios terem sido transmitidos, True Blood é inequivocamente a nova série a seguir esta temporada.

27.9.08

Paul Newman (1925-2008)