Showing posts with label Francis Ford Coppola. Show all posts
Showing posts with label Francis Ford Coppola. Show all posts

15.11.07

Um Regresso em Falso

Passados dez anos do seu anterior filme, um dos maiores e mais emblemáticos realizadores de todos os tempos regressa à realização, criando, como é óbvio, imensa expectativa em torno da sua nova obra, Youth Without Youth. A acrescentar a isso o facto de as estreias de filmes apelativos durante este ano estarem a ser escassas, ainda mais esperava encontrar no regresso de Coppola também um regresso aos grandes filmes a passar em Portugal, mesmo não sendo estreia oficial. É claro que, entretanto, já tinha surgido o trailer (bastante fraco), que fez que me dirigisse ao European Film Festival no Estoril sem certezas, mas confiante.

Visto o filme, fica bem claro que o realizador de Godfather se tem recentemente dedicado mais às suas vinhas do que ao cinema, e, verdade seja dita, podia lá ter continuado, porque o Cinema é escasso em Youth Without Youth. De uma forma geral: realização básica, sem qualquer visão ou profundidade; argumento superficialíssimo sobre todos os temas que aborda, preferindo sempre despejar citações filosóficas intermináveis a dar relevância ao lado humano das suas personagens; interpretações desequilibradas, sendo que Tim Roth vai apenas bem e Bruno Ganz está insuportável.

Antes de mais, é óbvio que quando falo em realização básica não me refiro à componente técnica, embora aqueles recorrentes e despropositados planos ao contrario e cenas com o duplo filmadas de forma sempre igual (com a originalíssima ideia de o filmar quase sempre em espelhos!) realmente o sejam, parecendo mais um novato a tentar impressionar com uns quanto truques que já têm barbas do que propriamente um realizador com a qualidade de Coppola. Porém, refiro-me principalmente, quando digo que a realização é básica, à forma desinteressante como o realizador olha para as personagens (quase sempre como meros declamadores de livros de filosofia) e para diversos temas que procura abordar (tudo superficial, tudo previsível e à base de sub-plots insignificantes).

Falando em previsibilidade, há que afirmar que, pelo contrário, o filme também tem a sua dose de imprevisibilidade: depois de uma hora a investir na componente política, discutindo-se frequentemente o interesse dos nazis na personagem de Tim Roth, Coppola lembra-se de mandar toda essa narrativa às urtigas, deixando no ar a questão (talvez a mais pertinente que o filme coloca) isto tudo afinal foi para quê? Na segunda metade, deixa então o lado político para tentar investir no lado humano, mas infelizmente umas quantas banalidades de planos ao pôr-do-sol e à lua cheia não chegam para se criar a intensidade que se pedia àquela relação. Ou, para um exemplo mais escandaloso, recorde-se a viagem até à Índia, cena essencial para começar a desenvolver a relação amorosa. E o que há a dizer sobre essa cena? Do mais pobre e ridículo a nível de encenação, um dos exemplos máximos do amadorismo do filme. De resto, as considerações sobre o amor em oposição à sua vontade de terminar o livro da sua vida são também do mais previsível e simplório, assim como as discussões com o duplo a esse respeito.

Tim Roth vai bem e faz o que pode, mas Coppola não o sabe aproveitar. Na verdade, nunca lhe é dada uma personagem a sério para defender. E o maior exemplo disso são os "poderes especiais" que a personagem adquire com a electricidade do raio que o atinge. Para se tornar credível, pedia-se uma exploração das causas desses poderes em si mesmo e nos que o rodeiam, e não que fossem usados pontualmente quando é necessário que a narrativa avance e tem que se ir buscar qualquer coisa (péssima cena da pistola).

Este regresso de Coppola ao cinema sai, pois, completamente ao lado do esperado. Tem que começar a controlar melhor a taxa de álcool do vinho que produz para ver se a quantidade de asneiras começa a diminuir. E aqui não falo apenas do cinema: os recentes comentários à revista Empire sobre Martin Scorsese são do mais triste que pode haver; bocas de fofocas e de mal-dizer ao nível das discussões do mais básico talk-show. Custa-me fazer tão duras críticas a um cineasta que tanto admiro, mas, para ser justo, não tenho alternativa. Resta-me esperar que Tetro, o próximo filme que tem agendado (2009), seja Coppola de regresso aos grandes filmes.

10.11.07

Cativante!

Youth Without Youth, Francis Ford Coppola (2007)

Nunca se deve duvidar da capacidade de Coppola para surpreender. Convocando a meditação, filmando de forma clássica mas redescobrindo o próprio cinema em cada imagem, Coppola jura fidelidade a um estilo de não compromisso perante nada nem ninguém. Quem arrisca desta maneira tem que ser saudado, mesmo que os resultado não seja sempre o sucesso. Youth Without Youth não acerta sempre, mas quando acerta é o cinema na sua forma mais pura e consequentemente mais radical e bela. Viva o Cinema!