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30.7.07

Ingmar Bergman (1918-2007)

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16.6.07

Fanny och Alexander


Sejamos directos: Fanny och Alexander, de Ingmar Bergman, é um dos filmes mais perfeitos e completos alguma vez feitos. O poder dramático desta obra-prima monumental vem precisamente daí: da quantidade de temas e perspectivas abordados, desde a infância à velhice; do tratamento dado a cada personagem, como se não existissem secundários, mas tivessem todos uma importância fundamental no desenvolvimento narrativo e na construção das outras personagens; da complexidade e do radicalismo das ideias dramáticas e da forma como se relacionam com a imaginação de Alexander, que, caso seja necessário apontar alguma, é de facto a personagem principal do filme. Está tudo na medida certa durante as 5 horas e 12 minutos de duração da versão televisiva: não há um único diálogo de informação inconsequente nem um único ponto narrativo em que algo fique por dizer; todo o filme é, enfim, uma obra de perfeito equilíbrio na forma e no conteúdo.

Na cena inicial, vemos Alexander sozinho numa casa, onde tem uma visão da morte. Durante o desenrolar do primeiro acto, conhecemos a família Ekdahl numa reunião para celebrar o Natal. São-nos apresentados os dramas individuais de cada personagem, mas sobretudo a força da união que existe na família e a felicidade em que vivem as crianças. Porém, a presença da morte, que surgira a Alexander na cena inicial, acaba por se relevar no segundo acto com o falecimento de Oscar, o pai de Fanny e de Alexander. E é assim que, de uma forma geral, a morte vai dando lugar à vida existente durante o primeiro acto, prosseguindo com o casamento de Emilie (viuva de Oscar) com o autoritário bispo Edvard Vergerus e o abandono por parte de Emilie e das crianças da casa colorida em que habitavam para a frieza da habitação do bispo.

E o filme poderia, com alguns ajustes, acabar aí, no final do quarto acto, já explorada a relação do bispo com Emilie e com as crianças. Se terminasse, seria na mesma, diga-se, um poderosíssimo drama humano. Mas ainda nos espera o quinto e último acto do filme, com duração de quase hora e meia. E nada nos pode fazer esperar o que aí vem: é aí que o ciclo se completa e que o desenvolvimento de personagens que tinha acontecido durante o primeiro acto adquire toda a importância dramática; e é aí que as cenas da imaginação de Alexander atingem o ponto máximo de transcendência na relação com a realidade, naquela história de peregrinação que lhe é contada para adormecer, mas que o deixa mais desperto que nunca (uma das mais belas cenas de cinema de que há memória?).

Não vi a versão de cinema, com pouco mais de três horas, mas, segundo o que li, as cenas cortadas foram maioritariamente as da imaginação de Alexander, o que é compreensível, dado que são as menos necessárias para que a narrativa faça sentido. Mas, na verdade, é esse lado do filme que faz a diferença, na medida em que o eleva de obra-prima com grande poder dramático a um patamar divino, religioso, transcendente... Uma das maiores obras de arte da História do Cinema, com uma edição em DVD pela Criterion à altura.

15.1.07

Persona

Vemos por várias vezes em Persona um miúdo que toca numa tela onde é projectada uma cara feminina. Não sabemos quem é, nem o que quer alcançar (mesmo que possamos debater todos os seus significados possíveis), mas nem por isso nos deixamos de sentir hipnotizados por essa imagem (ou, de uma forma geral, por toda a sequência de imagens que compõe o filme); pelo fascínio com que o miúdo observa e toca naquela tela. Talvez nos identifiquemos com ele. Talvez estejamos mais próximos dele do que pensamos. Talvez, no limite, estejamos a observar e a tactear as imagens de Persona da mesma forma que ele o faz quando toca naquela imagem, enquanto temos uma das experiências mais radicais da História.

11.1.07

A Hora do Génio



Entre os milhões de vídeos instalados no youtube pode encontrar-se esta preciosidade: o genial trailer de «Hour of the Wolf», um dos filmes máximos de Ingmar Bergman e um caso exemplar de material promocional: sendo um meio de divulgação de uma obra, é, ao mesmo tempo, uma verdadeira porta de entrada para o seu universo.

«Hour of the Wolf» é, do ponto de vista cronológico, a obra seguinte a «Persona» (o filme dos filmes de Ingmar Bergman e uma das quatro ou cinco maiores obras-primas da História do Cinema). Não é, pois, de estranhar, como o trailer deixa antever, que compartilhe com ele diversos pontos estéticos e temáticos. Desde logo a assunção e proclamação do carácter absoluto da sua matéria cinematográfica. O que vemos, diz-nos Bergman, é unicamente um filme: não pertence ao mundo das coisas, mas apenas ao mundo do Cinema. Se em «Persona» essa proclamação surge, por exemplo, quando Ingmar Bergman se filma a si próprio (a filmar o seu filme), em «Hour of the Wolf» é a sua voz de comando e os ruídos dos bastidores que ditam o início da obra.

Há, todavia, um outro ponto de similitude entre as duas obras que me parece bem mais revelador: o nome da personagem principal (Alma, nos dois casos!). Mas se é a Alma que aproxima «Persona» e «Hour of the Wolf», é também a alma que os separa: «Persona» é, entre outras coisas, um filme sobre a fusão (de almas); «Hour of the Wolf» é, acima de tudo, um filme sobre a dolorosa separação (de almas). Se essa separação é ditada por um “excesso” de amor (se é que uma palavra aparentemente totalitária como o Amor permite algo que a exceda…) ou por um amor que não comporta os “excessos” da fusão absoluta, eis, porventura, a mais radical questão colocada neste filme.

Uma das razões porque Ingmar Bergman é um génio cinematográfico incomparável é porque nos convence de que o nosso olhar não estava a priori preparado para experimentar o seu cinema. Perante ele regressamos ao local de todas as aprendizagens, ao estado puro das percepções. Basta ver este trailer de «Hour of the Wolf» para perceber isso mesmo…