31.1.08

Sweeney Todd: um Burton menor-maior


Entre aquilo que é e aquilo que poderia ter sido, «Sweeney Todd» afirma-se como uma sólida, eficaz e muito fiel transposição para o cinema da magnífica peça teatral homónima. Tim Burton convoca o seu estilo habitual e transforma em quadros cinematográficos muito interessantes todos os fragmentos da peça, como se a cada momento pudéssemos contrapor as duas artes e respectivas linguagens e testar os seus limites e potencialidades. Numa palavra, dir-se-ia que Burton não reinventa a peça, mas também não teatraliza o filme. Mantém-se fiel ao seu estilo, mas é também fiel ao estilo da peça. Desta forma, o filme devolve-nos a possibilidade de reencontrar o fulgor da encenação teatral desta magnífica história de amor e vingança, ao mesmo tempo que não eclipsa os principais traços característicos e sedutores da arte burtoniana.

O material narrativo e poético de base oferecia, todavia, grandiosas possibilidades e o Cinema, já se sabe, é a arte de todas as possibilidades (e Burton um cineasta de muito talento). Daí que partíssemos para este filme com a expectativa de que Burton realizasse aqui a sua obra-prima, a sua grandiosa ópera trágica. Mas não, infelizmente. É verdade que estamos perante um belíssimo filme, mas não deixa de ser também claro – há que dizê-lo – que Burton joga invariavelmente pelo seguro, aposta nos planos controlados e directos, por vezes mesmo na mera transposição de quadros da peça quase de forma rotineira. Faltou-lhe, sobretudo, a ousadia e a irreverência de experimentar a grandiosidade – do espaço, dos sentimentos – e a inspiração para encenar a tragédia de forma desmedida e radical.

E no entanto não deixamos de gostar muito deste filme, porque naquilo que é (esqueçamos agora aquilo que poderia ter sido) «Sweeney Todd» consegue encenar uma grande história sem lhe retirar a grandeza e consegue ainda concretizar em plenitude (coisa cada vez mais rara) a verdadeira matriz do género musical: o que importa são as músicas e o que aí se canta/conta, isto é, são as partes não musicais que servem para complementar as musicais e não estas que servem para ilustrar aquelas. Gostámos sobretudo de poder ver em cinema uma história que já conhecíamos e que muito admirávamos e que de modo algum sai enfraquecida. Que balanço fazer, afinal? Um Burton rotineiro a filmar uma história maior sem a tornar menor? Um Burton menor-maior? Provavelmente, com todas as contradições que isso implica.

Disco Riscado

Voz off colocada, melancólica e segura. Cenas em câmara acelerada, tema musical triste, planos contemplativos de paisagens naturais. Rewind.

Voz off colocada, melancólica e segura. Cenas em câmara acelerada, tema musical triste, planos contemplativos de paisagens naturais. Rewind.

Voz off colocada, melancólica e segura. Cenas em câmara acelerada, tema musical triste, planos contemplativos de paisagens naturais. Rewind.

The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford é isto, repetido dezenas de vezes. No meio há uma intriga ela própria redundante e uma fotografia que agrada ao olho. A voz off referida explica o sentido do que vamos ver, provavelmente porque a capacidade das imagens para transmitir qualquer ideia ou emoção para além do descritivo visual é nula.

As paisagens naturais e planos longos substituem a falta de talento do realizador, transmitindo a mentes pouco esclarecidas uma ideia de profundidade. O desencanto melancólico embrulhado no formalismo seco concretiza um pedantismo autista suportado no total vazio, para gáudio de alguns críticos cujo estilo tem muito em comum com este objecto: discurso redundante, elaborado e repetitivo sobre o Nada.

Elogia-se, no entanto, a adequação do título ao filme, já que, tal como este, nunca mais acaba.

30.1.08

4 LUNI, 3 SAPTAMANI SI 2 ZILE (2)


Este filme chega até nós carregado pela vitória em Cannes em 2007 e por uma onda elogiosa que o encara simultaneamente como símbolo de renovação do cinema de leste e como exemplo de honestidade no tratamento de uma questão social tão delicada como o aborto ilegal.

Olhamos para ele, todavia, com um certo distanciamento emocional e com relativa indiferença face às suas imagens. E rejeitamos, sobretudo, o elogio fácil e preguiçoso à sua (suposta) honestidade e ausência de julgamentos morais. De facto, parece-nos que a honestidade e a ausência de manipulação moral não são méritos cinematográficos dignos de registo, e que estar a salientar tal «dever ser» acaba por ser tão equivocado como elogiar uma pessoa por não mentir ou dar os parabéns a alguém por não roubar. Percebe-se a necessidade de contraposição face a objectos medíocres e manipuladores como «Vera Drake» (que, recorde-se, também em tema de aborto, decide convocar a pena – e em questões sociais, nada pior do que ter pena… – do espectador colocando a pobre Sra. Vera a chorar durante mais de meio filme), mas é importante não inverter os valores em causa!

De resto, nada neste filme nos parece especialmente marcante. Em termos temáticos as personagens e os seus dilemas não nos interpelam, não convocam novas reflexões, nem abalam as fundações das nossas convicções. Por seu turno, em termos estritamente cinematográficos as imagens compõem uma estética realista, crua e despojada, mas que em última instância parece sempre mais preocupada em acentuar um desejo de neutralidade (relativamente utópico, diga-se) do que em explorar a fundo os dramas das suas personagens. Regista-se a tentativa de tratar com relevância o tema do aborto ilegal numa Roménia aprisionada de finais da década de 1980, mas o cinema que aqui habita é apenas esforçado e competente e rapidamente se apagará da nossa memória.

28.1.08

God would have mercy. He won't.


Ora bem... eu que tinha sempre feito "cara feia" a esta trilogia (bem como à série Rocky), dou a mãe à palmatória.

Bem, pelo menos parcialmente, que o terceiro filme não tem ponta por onde se lhe pegue... mas o que interessa é que ultrapassei o meu preconceito, e estou de mente aberta para a quarta parte... esperando que siga o exemplo de Rocky Balboa, e não a tendência da trilogia dos anos 80, de cada filme ser pior que o anterior.

No primeiro filme é interessante observar a não aceitação de Rambo como um veterano do Vietname pelos homens da lei de uma cidadezinha perdida no interior da América. Sentimos sempre que eles estão errados na sua atitude, e há sempre uma simpatia latente por Rambo, que no fundo, só quer ser aceite por uma sociedade que nunca aceitou a guerra em que participou (isso, aliás, é claramente dito no início do terceiro filme). First Blood prima pela economia narrativa e até a inexpressividade de Stallone funciona como caracterização da personagem. Fiquei agradavelmente surpreendida, e expectante...

No segundo filme nota-se já uma tentativa de capitalizar o sucesso do anterior. A narrativa já é um pouco mais dispersa, e a introdução de um personagem feminino, e tentativa de introdução de romance... risível. No entanto, o conjunto continua a funcionar relativamente bem, e esta segunda parte é um filme simpático, se bem que olvidável.

Agora, na terceira parte, tudo o que tinha sido construido nos dois primeiros filmes cai por terra, qual castelo de cartas. A começar pela introdução de um puto para fazer avançar a narrativa, pelo excesso de "palha", da própria imbecilidade do argumento... não tem ponta por onde se lhe pegue. Acho que até cheguei a passar pelas brasas...

O melhor dos filmes? Estes diálogos:

Trautman: Vagrancy wasn't it? That's gonna look real good on his grave stone in Arlington: Here lies John Rambo, winner of the Congressional Medal of Honor, survivor of countless incursions behind enemy lines. Killed for vagrancy in Jerkwater, USA.

Teasle: Whatever possessed God in heaven to make a man like Rambo?
Trautman: God didn't make Rambo. I made him!

Zaysen: Who do you think this man is? The Lord?
Colonel Trautman: No. God would have mercy. He won't.

Espera-se que haja coisas parecidas no próximo filme...

27.1.08

Novo show de Joe Wright

Depois do embuste que foi «Pride and Prejudice», um filme absolutamente execrável e ridículo, não era com grandes expectativas que esperava este «Atonement», e decidi ignorar a excelente recepção norte-americana, até porque o anterior filme já tinha sido bem recebido. Porém, esperava-se que no mínimo este novo filme tivesse algo de minimamente interessante; afinal de contas, descer era impossível. Mas o que acontece é que, se por um lado se abandona o tom histérico de «Pride em Prejudice», por outro este tom mais sério em nada favorece o resultado final, tornando-se ainda mais irritantemente inconsequente e pretensioso.

Tudo em «Atonement» é completamente by the book e sem o mínimo de originalidade ou complexidade. Existe a preocupação de contar uma história, mas nunca a preocupação de construir algo narrativa e dramaticamente pertinente. Veja-se a primeira parte do filme: se fosse gasto menos tempo a chamar a atenção com saltos temporais despropositados e cenas filmadas sobre várias perspectivas, talvez se conseguisse criar algum intimismo, nem que fosse na relação romântica principal. Mas Joe Wright nunca investe nisso; limita-se a informar-nos de que ela existe, e depois quer apenas mostrar-nos os seus artifícios técnicos, como se fosse um grande realizador ou como se o tom do filme pedisse isso em todas as cenas.

Na verdade, todas as tentativas dramáticas do filme saem furadas pela forma descontextualizada como são inseridas, e pela encenação certinha que retira qualquer credibilidade e honestidade. Atente-se a como Joe Wright inicia a suposta reflexão sobre os horrores da guerra: sem qualquer propósito, e sem que tenha sido até aí levantado o tema, a personagem de McAvoy surge na floresta e de repente pára; durante um zoom out, vamos vendo algumas dezenas de corpos de crianças mortas (dispostas milimetricamente como se se tratasse de alguma pintura ou postal), e McAvoy verte duas lágrimas.

Mas a reflexão sobre a guerra não se fica por aí. No já famoso plano sequência de alguns minutos, McAvoy passeia-se pela praia assistindo ao horror que o rodeia, com tudo perfeitinho e a banda sonora em crescendo dramático (pena que nas imagens não exista drama nenhum), incluindo um côro de soldados perto do final a cantar em consonância com a música de fundo, até ao plano final geral de toda a praia ao pôr-do-sol. Era impossível ser-se mais previsível na encenação e na utilização do espaço. Qual é o porquê de toda esta utilização de recursos técnicos em cenas que têm tanto de pomposo como de oco? Como não compreendo o propósito, deixo a explicação do próprio Joe Wright: "Basically, I just like showing off."

Que não se pense, no entanto, que são pontuais as cenas em que tal acontece. Flashbacks inseridos a martelo que repetem cenas que já vimos só porque sim, banda sonora intrusiva de máquina de escrever e a tentar dar o dramatismo que não existe nas imagens, as já referidas cenas vistas sobre várias perspectivas intercaladas de saltos temporais: tudo isto é constante. Toda a construção narrativa tem como objectivo tornar tudo o mais pomposo possível, como se se estivesse a filmar o maior épico de todos os tempos, quando a dimensão dramática das personagens nunca passa daquilo que se vê no mais banal romance televisivo de domingo à tarde. De facto, filmes vazios há muitos. O que é, neste caso, verdadeiramente irritante, é que se queira vender o vazio como algo de grande dimensão dramática, através da execução aleatoria de movimentos de câmara e truques de montagem supostamente impressionantes. Joe Wright parece estar convencido de que é um grande realizador. Na verdade, é um dos piores do mundo na actualidade.

26.1.08

We Own the Night

Está encontrada a primeira obra-prima do ano. E é se for lançada em Portugal...

22.1.08

HEATH LEDGER 1979-2008

Absolutamente surreal. Rest in peace.

21.1.08

Presente de Natal No.2

Quase um mês atrasado, mas finalmente chegou!

2.1.08

Melhores de 2007 (João Ricardo Branco)


1 -INLAND EMPIRE, de David Lynch
2 -The Fountain, de Darren Aronofsky
3 -Death Proof, de Quentin Tarantino
4 -Eastern Promises, de David Cronenberg
5 -Das Leben der Anderen, de Florian von Donnersmarck
6 -Letters From Iwo Jima, de Clint Eastwood
7 -Control, de Anton Corbijn
8 -Paranoid Park, de Gus Van Sant
9 -Zodiac, de David Fincher
10 -Die Grosse Stille, de Philip Gröning

Num ano de Cinema não especialmente forte, «INLAND EMPIRE» afirma-se como obra capital. Trata-se não apenas do melhor filme de David Lynch – um dos cineastas fundamentais dos últimos 30 anos – mas também de um dos rasgos de génio mais profundos e radicais do cinema das últimas décadas. «INLAND EMPIRE» estará para a obra de Lynch como «Persona» está para a obra de Bergman: ambos partem de uma necessidade de interrogar os limites formais do Cinema na representação de uma abstracção absoluta e ensaiam um duplo movimento oposto que tudo estremece: por um lado, penetram as imagens até ao limite em busca do que elas escondem no seu interior; por outro, distanciam-se o mais possível delas em busca do Todo que as une. Em qualquer dos casos o resultado é vertiginoso e abala-nos irreversivelmente: deixamos de saber onde termina e onde começa o olhar, onde existem imagens e onde existem meros reflexos de outras imagens, onde está a câmara que filma todas as outras câmaras e onde está a verdadeira identidade das personagens que se mascaram ou se projectam noutras. É cinema total e absoluto, mera sucessão de imagens que tudo dizem e nada dizem. De tal modo que o que verdadeiramente importa em «INLAND EMPIRE» não é aquilo que as imagens nos mostram: é aquilo que elas nos escondem.

A uma distância considerável encontram-se os restantes nove filmes. «The Fountain», obra-prima absoluta e injustamente maltratada, também ela a uma distância considerável dos restantes oito filmes, é uma história de amor intemporal (literalmente!), radical, desmedida, transcendente e desesperada, que desafia permanentemente as nossas certezas e nos atinge emocionalmente por completo.

Os restantes oito filmes marcaram-me de forma diversificada e a sua inclusão neste TOP10 justifica-se por inúmeras razões. Em «Death Proof» vejo novas e vibrantes possibilidades cinematográficas e a certeza de que a imensa paixão de Tarantino pelo Cinema encontrou aqui um corpo perfeito. De «Eastern Promises» guardo sobretudo o olhar de Cronenberg sobre a religiosidade implícita no espaço que separa a morte da vida. «Das Leben der Anderen» foi uma das mais desarmantes surpresas de 2007, pequeno filme inspirador e comovente que nos devolve a possibilidade de acreditar no poder transformador da Arte. Em «Letters From Iwo Jima» volto a encontrar a envergadura do cinema de Eastwood na encenação de um intimismo dramático sempre em fricção com a irreversibilidade da morte. «Control» acertou-me em cheio com a sua capacidade estética para construir uma personagem enorme, que contorna em absoluto o ícone e a reprodução e que se assume como uma verdadeira personagem trágica e, nesse sentido, eminentemente cinematográfica. De «Paranoid Park» guardo essencialmente a forma como as imagens construídas por Van Sant conseguem rimar numa verdadeira poesia sobre a angústia de crescer. «Zodiac» é um exemplar thriller policial e merece o meu destaque em razão da sua enorme riqueza dramática e do virtuosismo adulto de Fincher. «Die Grosse Stille» conquistou-me, enfim, pela radicalidade da sua proposta e pelo muito Cinema que esconde.

Que 2008 seja um grande ano de Cinema!

1.1.08

Melhores de 2007 (Paulo Albuquerque)

1- I Don't Want to Sleep Alone de Tsai Ming-Liang *
2- Eastern Promises de David Cronenberg
3- Letters From Iwo Jima / Flags of Our Fathers de Clint Eastwood
4- Still Life de Jia Zhang-Ke
5- Zodiac de David Fincher
6- Il Caimano de Nanni Moretti
7- The Death of Mr Lazarescu de Cristi Puiu
8- Les Anges Exterminateurs de Jean-Claude Brisseau
9- Paranoid Park de Gus Van Sant
10-Black Book de Paul Verhoeven, Climates de Nuri Bilge Ceylan e The Good Shepherd de Robert de Niro
*lançado directamente para o mercado de dvd

Sem Distribuição:
1- Opera Jawa de Garin Nugroho
2- He Fengming de Wang Bing
3- Syndromes and a Century de Apichatpong Weerasethakul
4- In Between Days de So Yong Kim
5- Alexandra de Aleksandr Sokurov e Black Sheep de Jonathan King