13.6.09

abismo







28.5.09

21.5.09

João Bénard da Costa (1935-2009)

19.5.09





16.5.09

Heresia!


Parabéns a Ron Howard e à equipa técnica de Angels & Demons por terem conseguido transformar o bom entretenimento que Dan Brown escrevera, por mais descabido e over-the-top que fosse o registo adoptado pelo autor, no mais gritante monumento de inverosimilhança e espalhafato dos últimos tempos.

A câmara agonia de tantas voltas que dá, não adopta um ponto de vista mas antes uma dezena deles, o argumento desperdiça todas as boas ideias oferecidas de bandeja pelo romance, alterando-o largamente e convertendo grande parte da intriga num jogo de unir os pontos desprovido de quaisquer significados. Tudo é previsível, requentado e, acima de tudo, há uma noção totalmente errada do ritmo a adoptar, dando um efeito de aleatoriedade à trama que culmina no final ultra-climático que resulta dos mais anedóticos de que há memória.

As queixas de que The Da Vinci Code era maçador e demasiado explicativo foram tidas em conta, sem meio termo: aqui os diálogos do tipo palestra histórica são reduzidos ao mínimo, com algum humor à mistura, e tornam-se tão vazios que quase não se sente a ameaça dos Illuminatti, ponto fulcral de todo o empreendimento...
É, sem dúvida, uma das piores adaptações cinematográficas de um romance, ao confundir simplificação com esvaziamento de conteúdo, para mais sendo servida por uma encenação sem qualquer ideia definida.

No lado "positivo", Tom Hanks regressa mais convincente como Robert Langdon, mas o argumento do filme transforma-o num peão completamente descartável e maltratado no desfecho, quando até havia potencial para uma exploração, simplista que fosse, da sua busca pela Fé. O par protagonista, que no livro ganhava química através das peripécias mirabolantes que sofria, aqui não a tem porque é abruptamente separado a meio do filme. Aliás, interacção é algo que não existe entre as personagens do filme, que derivam ao sabor da incompetência do argumento.

E depois há aquele irrealista Vaticano digital... E uma das piores cenas de tiroteio de sempre... E planos e mais planos de repórteres a debitarem banalidades em várias línguas vezes sem conta... E que dizer da banda-sonora, que deveria vir com um aviso de epicidade, para o espectador mais incauto não furar os tímpanos com o volume dos coros e os agudos e horríveis solos de violino?

Haverá, sem dúvida, objectos muito piores, mas este consegue a proeza de tornar The Da Vinci Code num melhor filme por comparação (e até National Treasure...), o que tendo em conta a base literária era um feito quase impossível. A intriga religiosa é tão confusa, rebuscada e, em última instância, ridícula que, não fosse tão inofensiva e descartável, poderia ofender algumas almas católicas mais susceptíveis... Haveria mesmo necessidade de dois grandes planos do cadáver putrefacto do Papa?

Por mais polémicas religiosas que possa suscitar, Angels & Demons é, acima de tudo, uma heresia contra o Cinema e um explosivo exemplar de anti-matéria artística.

do outro mundo





A beleza deste filme é estonteante. O romantismo excessivo das imagens e o melodramatismo da música de Carlo Rustichelli conjugadas em sublime harmonia. Toda uma criação de mundos novos e assombrosos a cada enquadramento, cada um feito de cores e sombras descobertas (inventadas?) por Bava. Um contínuo imperturbável de cinema puro, a poderosa intensidade das sensações resultado exclusivo da expressão visual e sonora atmosféricas do carácter ao mesmo tempo sedutor e aterrorizador da violência e do sobrenatural. As imagens de terror, prazer e incerteza, do belo, a reproduzir a essência dessa relação central de uma personagem com os seus medos e desejos interiores.

10.5.09





Um filme duro, violento, sádico, humano. Um espaço, um carro, a claustrofobia permanente, o calor que se sente, o suor e a expressão nos rostos, tudo a contribuir para a tensão do momento. O terror a explodir da interacção humana, directo e sem explicações, a assustadora realidade filmada como um pesadelo incessante. Sem concessões, imperfeito, das entranhas. Cinema visceral.

9.5.09

Para compensar...

Cinema.

star trek



Encenação horrível. E o resto também não é grande coisa.

Grau zero do cinema.

8.5.09

Além da Morte

Det sjunde inseglet (1957) de Ingmar Bergman

memória





7.5.09

Algumas considerações sobre Two Lovers



(sem spoilers)

O radicalismo no cinema é isto, este gesto estético corajoso, desconcertante na sua relação contrária aos métodos fáceis que dominam o panorama cinematográfico nos tempos que correm, um filme sem um grama de excesso ou um único olhar, aproximação, distanciamento, movimento (da câmara e dos actores), que não tente condensar de forma total, e totalmente ambígua, as manifestações humanas e o lugar que ocupam numa realidade. Uma história de amor observada através de um tratamento formal e narrativo depurado até ao extremo em que apenas subsistem em exclusivo as imagens e elementos narrativos absolutamente indispensáveis para a radiografia do amor. Para a existência de uma compreensão plena das forças interiores e externas que geram, definem e condicionam os estados de espírito, as acções, as relações, a vida. Uma atenção sublime às pequenas subtilezas e ao significado dos pequenos e grandes gestos, os ínfimos detalhes que se tornam determinantes e proeminentes na genial concentração no enquadramento e sabedoria na gestão dos tempos que James Gray demonstra em todos os planos.

O investimento na genuína humanidade das relações, a riqueza na dramaturgia visual e a direcção dos actores (perfeitos, todos eles) que tornam tudo credível e realista (relativamente à relação de verdade que se estabelece entre matéria e câmara), ao mesmo tempo que o trabalho atmosférico sobre o som e fotografia, e o crescendo de emoções obsessivas, tornam tudo poético e por vezes vagamente onírico. É o estado mental da personagem a entranhar-se lentamente nas imagens, nas sensações que estas nos provocam. Depois há a insuficiência de um corpo/mente para a consumação plena da idealização do amor, a do outro ou de si próprio, e a fragilidade destas pessoas sempre em primeiro plano - sem o forçar, o ridículo e o cómico também são parte natural dessa composição de fraqueza desequilibrada, e neste sentido a interpretação de Joaquin Phoenix, que podia resultar maneirista, atinge a autenticidade mais (im)perfeita e indefinível (e é a melhor interpretação de uma carreira). Neste contexto, aquela insustentável força de um sentimento de paixão incontrolável ou a ânsia de felicidade são ainda mais arrasadoras.



A universalidade emocional que caracteriza estas existências é alcançada a partir do mais específico do trajecto de uma vida, ou seja da apreensão e consciência das especificidades do tempo e da sociedade contemporânea onde a acção decorre. Logo se revela a dimensão intrínseca, sem tempo, das emoções, enquanto se evocam os erros e paixões repetidos ao longo dos anos em milhentas outras histórias, surgindo também como ecos cinematográficos de outros romances e tragédias, o que fortalece a profunda sensação de melancolia que invade todo o filme. Mais importante para a consolidação dessa dimensão de intemporalidade, é a permanente rejeição de qualquer efeito de estilo ou atitude modernista de condescendência/cinismo/distanciamento crónicos em relação às personagens; rejeição essa que é acompanhada, claro, por um obstinado afastamento da inconsequência dos artifícios estilísticos cinematográficos pseudo-modernos. Two Lovers revela-se desta forma o mais actual, relevante e moderno dos filmes.

O génio de Gray transparece como nunca antes, materializado na sensibilidade perfeita de uma direcção que vai ao ponto de conseguir comover apenas com um gesto de cinema na escolha ou concretização de determinado enquadramento. Crescentemente angustiante e belo, apresenta uma progressão emocional de personagens em que cada plano e segundo de película é literalmente transformador: é a constante descoberta de novas realidades interiores sobre as personagens cada vez mais verdadeiras e contraditórias, de novas nuances e novos sentimentos a permear os conflitos.



E muito mais haverá a dizer... sobre o recorrente papel fundamental simultaneamente opressor e libertador da família no cinema de Gray, sobre a personagem e interpretação fascinantes de Gwyneth Paltrow (um dos principais motivos para o filme funcionar tão bem), sobre a utilização da música ou, por exemplo, sobre como não há mais ninguém a filmar sequências tão extasiantes e eufóricas em discotecas. Enfim, sobre tudo.

28.4.09

a poética do sonho



regressar a black dahlia











Uma questão de compreender a realidade como um mistério permanente, a verdade como absoluto inatingível. O passado é a memória que aprisiona e define o percurso das suas personagens, e a força primordial da concepção do enquadramento materializa todos os propósitos do cineasta. Uma narrativa que De Palma filma impregnando-a sempre de uma plena e aflitiva consciência da morte e violência que se esconde atrás das máscaras, da mentira, e portanto de uma imagem.

A construção genial do plano, o fora de campo, as faces da realidade que progressivamente se vão descobrindo, permeiam todas as palavras e eventos do presente de um carácter de completa incerteza. Isto transforma a sequência de imagens numa experiência muito mais sensual, enigmática, densa, dramática. Os novos dados que se vão acumulando, gradualmente revelados, baralham todas as coordenadas narrativas e da percepção subjectiva do espectador, cinematograficamente (e por isso do ponto de vista humano) tornando as coisas muito mais verdadeiras. Daí que se a narrativa padece de uma construção de linearidade coerente, em abstracto desordenada ou aparentemente desconexa, esse é um sacrifício de acessibilidade necessário para encontrar um sentido honesto e genuíno para estas histórias de obsessão, desonestidade, corrupção e mentira, acompanhadas pelo romper das paixões instintivas e comportamentos irreflectidos. E aqui o score jazzístico de Mark Isham, de sensações de romantismo e misterioso fatalismo, é determinante a enriquecer emocionalmente essas manifestações.

O progresso da personagem de Josh Hartnett rumo à verdade resulta numa destruição espiritual lenta e numa espiral irreversível de aproximação à morte, o que o move sendo cada vez mais exclusivamente um sentimento mórbido de obsessão relativamente à imagem sedutora e hipnótica da vítima, mais que qualquer intuito nobre de averiguar os factos.



Paixão exacerbada e morte misturadas como um só sentimento. A melancolia da voz off a consciência aguda de uma inocência impossível de recuperar - dispositivo utilizado de maneira fabulosa, tal como já havia sido feito de forma memorável em Carlito's Way. Esse fado trágico consciencializado que o/nos afasta de uma ideia de pureza da inocência e claridade da imagem, torna essa descida ao submundo da sociedade e da alma humana por parte do protagonista um trajecto ainda mais angustiante e por isso envolvente e imersivo.

Existe, como sempre existiu no seu cinema, um interesse claro por parte de Brian De Palma em proceder a uma exploração séria das implicações da ideia do subjectivo em cinema, não teórica, mas orgânica em ligação intrínseca e humana com a história que está a filmar. Poucas vezes mergulhou nessa exploração de forma tão profunda, investindo o próprio espectador no estado mental das personagens, no seu/nosso voyeurismo hipnotizado e na curiosidade inevitável pelo mórbido e perverso, mas que aqui mais do que nunca é sustentado por uma carga dramática e (i)moral inquietante, que abala. A imagem da Dália Negra sempre presente em off, a assombrar toda uma cidade.

Flui tudo num controlo magistral e absoluto do tom e das intenções, uma arquitectura visual de espelhos e reflexos, de clarificações evidentes e da subjectivação desorientadora. E uma noção cada vez mais incontestável, através desse processo de subjectivação que oculta os outros lados das máscaras - realçar neste contexto o registo teatral delirantemente ambíguo e assustador da personagem de Fiona Shaw-, da impossibilidade de iluminação. A iluminação é fugaz e transitória, logo obscurecida pelo que se esconde nas trevas, recalcado na memória - a sublime, inacreditável, sequência final assim o mostra, por via da mais pura lógica de cinema e do sonho (e aqui tem que se destacar o genial trabalho de Zsigmond sobre a luz). Um clímax que rima com o final de Blow Out ou Casualties of War.

Um filme injustiçado, talvez por quem esperava uma história mais imediatamente inteligível e resoluções bem atadas. Para quem só o Cinema interessa, acho que só pode ser uma experiência estimulante. Para mim, é mesmo uma das grandes obras-primas da década.

24.4.09

anarquia







21.4.09

Descobrir o Mundo



O pretensiosismo de Albert Serra só é ultrapassado pela indigência artística que revela plano após plano, numa confrangedora ignorância sobre como dar sentido a um plano (na duração, no ângulo, no movimento, no contexto). É o cúmulo do ridículo do cinema contemporâneo, este fazer pose de pensador do mundo e do cinema e a única coisa que se tem para mostrar é uma emulação superficial arrogante de imagens ou ideias de alguns mestres antigos. Definição de intrujice: o pequeno e simples milagre cinematográfico forçado pela única entrada de música em cena - plena e olímpica demonstração da falta de sensibilidade de um realizador para compreender a realidade que está a filmar. Falta de sensibilidade ou mesmo completo desinteresse em tentar essa compreensão, já que o factor chico-esperto de alguém que só quer fazer o número parece estar presente em cada gesto e opção. Há por aí um parceiro espiritual de Serra, também ele mestre neste forjar oco do grande cinema profundo e elementar de tempos esticados desproporcionadamente. Carlos Reygadas, responsável pelo mais pavoroso momento de cinema do ano passado, rip off indigno e mecânico, versão lite, do clímax de Ordet.

20.4.09

the long gray line









Como acompanhar uma vida inteira definindo-a sempre com a mesma graça e encantador humanismo em todos os pequenos e grandes momentos. E captar profundamente tanto a sua importância íntima para familiares e amigos, como a contribuição para uma ideia mais abrangente de Pátria. John Ford vai deslizando da felicidade à tragédia, do insólito à rotina, e tudo o que se encontra entre as emoções e acontecimentos mais definitivos, percorrendo de um extremo ao outro às vezes no decorrer de uma única sequência, com uma naturalidade tão verdadeira como bela. Uma noção do tempo precisa, e nesse sentido uma gestão narrativa de mestre, que de forma tão fluída transforma a passagem dos dias e das décadas em permanentes conquistas mas também em simultâneas e irrecuperáveis perdas. Ficam as memórias e o amor. Com salutar sentimentalismo, apreende-se todo o significado de um longo trajecto de vida encapsulado em apenas duas horas de cinema. Perante tamanha riqueza e genialidade dramatúrgicas é complicado arranjar palavras que lhe façam justiça. Fica a recomendação. Que filme sublime!

E não posso deixar de pensar que, rejuvenescimentos à parte, era algo como isto que Fincher tentava atingir com o recente Benjamin Button. Regista-se a tentativa simpática e correcta, mas fica a anos-luz da dimensão alcançada por filmes como este.

12.4.09

Cristo

Entre o tortuoso conflito interior, a difícil evolução espiritual e o transcendente sacrifício de The Last Temptation of Christ, a expressividade simbólica da imagética de violência e o poderoso discurso visual dos olhares em The Passion of the Christ, e a austeridade extrema, o despojamento e o rigor bíblico de Il Vangelo Secondo Matteo.








Todas obras de Cinema valiosas, radicais testemunhos da visão dos seus autores sobre uma mesma figura. A minha preferência recai sobre a obra-prima de Scorsese, embora o incompreendido filme de Mel Gibson mereça toda a minha admiração.

Não tenho grande interesse pela ilustração pictórica bonita mas aborrecidamente superficial feita por Ray em King of Kings, embora mesmo aí haja duas ou três sequências de génio que sobressaiem a meio do pastel catequético e político.

Ainda não consegui ver a versão de Rossellini, mas a curiosidade é muita.

11.4.09

Lisa and the Devil











Um caleidoscópio impressionante de imagens de terror e romantismo. Bava cria com mestria um labirinto de constante onirismo, sem lugar para a lógica do realismo, e por isso mesmo a fazer o máximo da liberdade formal e da associação instintiva entre sensações e situações. Personagens que vivem como marionetas manipuladas e aprisionadas sem piedade, e sem saída, pelo criador deste mundo poético assombrado e assombroso. A criatividade com que o realizador desenvolve essa cruel e suprema manipulação (também na sua relação com o espectador) manifesta-se plano a plano no magistral trabalho sobre as cores intensas, na estética de contrastes entre luz e sombra, ou na forma como joga com a arquitectura dos lugares na criação do mistério e do fantasmagórico. Manifesta-se também na sabedoria com que suscita emoção com o que se esconde nas sombras ou do outro lado, e com o enigmático dos elementos que surgem insistentemente sem sentido, da dimensão do sonho, das realidades paralelas ou de um passado esquecido que regressa sem explicação, factores de inquietação trabalhados de forma simples, numa rara pureza orgânica das formas, e com um envolvente estilo de movimentações de câmara, simultaneamente sensual, poético e violento. As atmosferas e o que se sente através delas acima de tudo.

Longe de perfeito - a canastrice de Alessio Orano é de bradar aos céus - o resultado é completamente hipnótico, o belo e o misterioso lado a lado, tudo a funcionar num mesmo sentido, o da exaltação sensorial do Cinema (um pouco como o Suspiria de Argento), com estilo e sentido de humor. Musicado em coerência por Carlo Savina, com um divinal score que se pode apelidar de morriconiano (também porque tem Edda Dell'Orso).