15.11.07

Um Regresso em Falso

Passados dez anos do seu anterior filme, um dos maiores e mais emblemáticos realizadores de todos os tempos regressa à realização, criando, como é óbvio, imensa expectativa em torno da sua nova obra, Youth Without Youth. A acrescentar a isso o facto de as estreias de filmes apelativos durante este ano estarem a ser escassas, ainda mais esperava encontrar no regresso de Coppola também um regresso aos grandes filmes a passar em Portugal, mesmo não sendo estreia oficial. É claro que, entretanto, já tinha surgido o trailer (bastante fraco), que fez que me dirigisse ao European Film Festival no Estoril sem certezas, mas confiante.

Visto o filme, fica bem claro que o realizador de Godfather se tem recentemente dedicado mais às suas vinhas do que ao cinema, e, verdade seja dita, podia lá ter continuado, porque o Cinema é escasso em Youth Without Youth. De uma forma geral: realização básica, sem qualquer visão ou profundidade; argumento superficialíssimo sobre todos os temas que aborda, preferindo sempre despejar citações filosóficas intermináveis a dar relevância ao lado humano das suas personagens; interpretações desequilibradas, sendo que Tim Roth vai apenas bem e Bruno Ganz está insuportável.

Antes de mais, é óbvio que quando falo em realização básica não me refiro à componente técnica, embora aqueles recorrentes e despropositados planos ao contrario e cenas com o duplo filmadas de forma sempre igual (com a originalíssima ideia de o filmar quase sempre em espelhos!) realmente o sejam, parecendo mais um novato a tentar impressionar com uns quanto truques que já têm barbas do que propriamente um realizador com a qualidade de Coppola. Porém, refiro-me principalmente, quando digo que a realização é básica, à forma desinteressante como o realizador olha para as personagens (quase sempre como meros declamadores de livros de filosofia) e para diversos temas que procura abordar (tudo superficial, tudo previsível e à base de sub-plots insignificantes).

Falando em previsibilidade, há que afirmar que, pelo contrário, o filme também tem a sua dose de imprevisibilidade: depois de uma hora a investir na componente política, discutindo-se frequentemente o interesse dos nazis na personagem de Tim Roth, Coppola lembra-se de mandar toda essa narrativa às urtigas, deixando no ar a questão (talvez a mais pertinente que o filme coloca) isto tudo afinal foi para quê? Na segunda metade, deixa então o lado político para tentar investir no lado humano, mas infelizmente umas quantas banalidades de planos ao pôr-do-sol e à lua cheia não chegam para se criar a intensidade que se pedia àquela relação. Ou, para um exemplo mais escandaloso, recorde-se a viagem até à Índia, cena essencial para começar a desenvolver a relação amorosa. E o que há a dizer sobre essa cena? Do mais pobre e ridículo a nível de encenação, um dos exemplos máximos do amadorismo do filme. De resto, as considerações sobre o amor em oposição à sua vontade de terminar o livro da sua vida são também do mais previsível e simplório, assim como as discussões com o duplo a esse respeito.

Tim Roth vai bem e faz o que pode, mas Coppola não o sabe aproveitar. Na verdade, nunca lhe é dada uma personagem a sério para defender. E o maior exemplo disso são os "poderes especiais" que a personagem adquire com a electricidade do raio que o atinge. Para se tornar credível, pedia-se uma exploração das causas desses poderes em si mesmo e nos que o rodeiam, e não que fossem usados pontualmente quando é necessário que a narrativa avance e tem que se ir buscar qualquer coisa (péssima cena da pistola).

Este regresso de Coppola ao cinema sai, pois, completamente ao lado do esperado. Tem que começar a controlar melhor a taxa de álcool do vinho que produz para ver se a quantidade de asneiras começa a diminuir. E aqui não falo apenas do cinema: os recentes comentários à revista Empire sobre Martin Scorsese são do mais triste que pode haver; bocas de fofocas e de mal-dizer ao nível das discussões do mais básico talk-show. Custa-me fazer tão duras críticas a um cineasta que tanto admiro, mas, para ser justo, não tenho alternativa. Resta-me esperar que Tetro, o próximo filme que tem agendado (2009), seja Coppola de regresso aos grandes filmes.

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